Morais Cardoso




Caminhando sem destino, mal conseguia suportar o turbilhão de pensamentos que invadia sua mente, estava cansada. Carregando Nossa Senhora nos braços, ela sabia que nada acontecia por acaso.
Ela resolveu aproximar-se novamente da casa na qual havia abandonado seu filho, semanas atrás. Para sua surpresa avistou a placa: “Precisa-se de empregada e babá”. Ela, segurando firme a imagem de Nossa Senhora, mal acreditava no que lia. Era a oportunidade para estar com seu filho.
Ela toca a campainha e a mesma mulher que há poucas semanas segurava seu filho nos braços atende a porta.
“Estou muito interessada na vaga de empregada e babá” – diz Isadora, esforçando-se para não se emocionar.
A mulher, de aparência serena, pede uma referência e ela fala do padre. Ao confirmar-se a referência, Isadora é imediatamente contratada.
Isadora mal podia acreditar na peça que o destino lhe pregava: estava novamente com seu filho. Agradecia por isso todos os dias.
Em poucas semanas Isadora foi considerada uma filha por aquela mulher, dona Aracy.
Dona Aracy era uma bela mulher de 61 anos e vivia sozinha naquela grande casa há muitos anos, não teve filhos e tampouco se casou. Era a única herdeira de uma importante família do sertão.
A rotina naquela casa era um pouco exaustiva, mas Aracy sempre ajudava no que podia. Para Isadora era uma benção estar tão perto do filho.
Dona Aracy sempre precisava sair da cidade para cuidar dos negócios que a família a deixou, portanto Isadora aproveitava ao máximo esses momentos a sós com seu filho chamado Henrique – nome que Aracy escolheu para homenagear seu falecido pai, Henrique de Cascais.
Isadora presenciou importantes momentos ao lado de seu pequeno, como quando ele aprendeu a falar e quando ensaiava seus primeiros passos.
A jovem também logo ensinou o menino a ler e a escrever, ele era muito precoce.  Sempre rezavam juntos à Nossa Senhora para agradecerem por tudo. O menino sempre pedia a imagem de presente, mas Isadora sempre dizia que na idade certa ele a teria.
Certo dia, percebendo a grande afeição que Isadora tinha pelo menino, Aracy resolveu lhe perguntar sobre sua família: “Isadora, vejo que você cuida tão bem do Henriquinho, que às vezes parece até que é mãe dele. Conte-me um pouco sobre sua família... Tem filhos?”. Isadora assustou-se com a pergunta, mas respondeu com muita naturalidade: “Não tenho filhos... Saí de casa em busca de um emprego que não fosse na roça, para ajudar mais minha família... Com o tempo perdi contato com eles, mas encontrei um grande aliado, o padre que lhe deu minhas referências.”. Aracy, então, disse: “Sabe, Isadora, nesses três anos que você está aqui comigo, deve sempre se perguntar sobre a mãe do Henriquinho...  Afinal, eu sou uma velha de 64 anos e Henrique mal completou três! Acho que já adquiri confiança suficiente para lhe contar esse pequeno segredo que guardo há três anos... O Henrique não é meu filho, neto, ou seja lá o que você pensava... Certo dia, mais precisamente dia 11 de fevereiro de 1970, eu estava aqui em casa, sossegada, quando a campainha tocou... Fui atender e um lindo menino, acredito que recém-nascido estava ali, na minha frente... Pareceu que um anjo do céu havia visto toda a minha solidão e colocado esse anjinho no meu caminho, o Henrique. Coloquei o nome de Henrique em homenagem a meu falecido pai. Sempre comemoro seu aniversário dia 11, pois foi o dia em que o encontrei, ou melhor, ele me encontrou com uma ajudinha do destino... Nunca contei a verdade a qualquer um que fosse. Finalmente, essa família terá um herdeiro. Espero que não conte nada a ninguém...”. Isadora consentiu e pensou: “Mal sabe ela a verdade...”
Os anos se passaram e Henrique crescia saudável como qualquer outra criança, sempre sob os olhos cuidadosos e atenciosos de Isadora e Aracy.
Estudava em uma boa escola em outra cidade e tinha sempre o melhor a sua disposição. Era amado e querido por todos. Isadora sabia que ela jamais teria condição de fazer tudo isso pelo filho, portanto jamais se arrependeu pelo que fez.
O ano era de 1982, faltava pouco menos de uma semana para o aniversário de 12 anos de Henrique e as aulas já haviam começado há dois dias. Henrique estava saltitante tanto pelo aniversário como pelos amigos que iria rever.  O menino estudava à tarde e Isadora era sempre responsável por seu almoço.
Isadora foi à mercearia próxima da casa em que morava. Na volta, ela caminhava apressada, precisava chegar a tempo para fazer o almoço do menino, inclusive o suco de laranja que ele tanto gostava, antes dele ir à escola. Estava muito feliz, pois em uma semana Henrique já faria doze anos.
“Como esse tempo passa rápido! Meu menino logo será um homem!”- pensava distraída, já fazendo planos para a festa. Nunca esteve tão feliz. Com a pressa somada à distração, deixou cair uma das sacolas que segurava e laranjas rolaram pela estrada.
Não pensou duas vezes e correu para pegá-las. Mas, o destino não lhe deu trégua, ao correr pela estrada para pegar as frutas – que por um descuido caíram no chão – um carro em alta velocidade apontava na curva no mesmo momento. O freio não foi suficiente e Isadora foi violentamente atropelada, caindo desacordada naquela estrada de terra. CONTINUA...

Categories:

Total de visualizações de página